domingo, 7 de junho de 2020

Assobios de barro

O barro é milenar enquanto matéria-prima! O Homem usou-o para produzir múltiplos objetos, necessários ao seu quotidiano… outros menos “necessários” aos adultos, aqueles de cariz infantil encontrados em intervenções arqueológicas que nos fazem questionar como se interpretou a infância ao longo dos tempos.

“Curiosamente, sem sairmos da Península Ibérica encontramos brinquedos de barro em diversos contextos arqueológicos. Num deles, resultado de uma intervenção no Largo do Chafariz de Dentro em Lisboa, atesta-se a produção de bonecos e apitos, com «representações coroplásticas de equídeos, estando também atestados um cão e um antropomorfo, elaborados em barro vermelho com revestimento plumbífero a verde»”. (SILVA et alli…..)

Os investigadores apontam para uma cronologia do século XVI, nós vamos dar um salto até ao início do século XX, quando o etnógrafo Rocha Peixoto se referia à produção de brinquedos de barro; “para ellas (crianças) fabricam ainda os oleiros todos os typos de vasilhame em miniatura, (…) mealheiros, castiçaes, armadilhas para toupeiras, flautas, assobios de agoa, espécies de ocarinas imitando o cuco, cornetas, enfim. A fabricação com destinos infantis, é, de resto, bem antiga…”[1].

As figuras de barro produzidas em Barcelos, de resto de onde surge o famoso Galo, foram inicialmente concebidas com fins diversos. Dizia Rocha Peixoto que, independentemente da sua dimensão, tinham quase todas dois acessórios “um assobio e orifícios para palitos”, tendo assim dupla função, uma para adultos, outra para crianças.

Muitos destes assobios ancestrais podem ser vistos no Museu de Olaria, aqui em Barcelos…e procurem porque vão ver os fantásticos orifícios para palitos, em muitos deles…

Dizia-se que as mulheres dos oleiros, a quem cabia as tarefas mais árduas, ajudavam ao serão a terminar algumas peças, pelo meio construíam figurinhas para os filhos…e assim terá começado o figurado barcelense, hoje com outra dimensão, na esfera da arte popular e não na dos brinquedos outrora vendidos na feira e que serviam para chilrear durante o caminho…até se partirem por um descuido e ter caído ao chão… e na feira ou romaria seguinte, lá viria outro rouxinol ou uma ocarina!

 



[1] ROCHA PEIXOTO, António Augusto da- As Olarias de Prado, 2º ed., Cadernos de Etnografia 7, Museu Regional de Cerâmica, Barcelos, 1966, pp. 45 e 46.


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