O barro é milenar enquanto matéria-prima! O Homem usou-o para produzir múltiplos objetos, necessários ao seu quotidiano… outros menos “necessários” aos adultos, aqueles de cariz infantil encontrados em intervenções arqueológicas que nos fazem questionar como se interpretou a infância ao longo dos tempos.
“Curiosamente,
sem sairmos da Península Ibérica encontramos brinquedos de barro em diversos
contextos arqueológicos. Num deles, resultado de uma intervenção no Largo do
Chafariz de Dentro em Lisboa, atesta-se a produção de bonecos e apitos, com
«representações coroplásticas de equídeos, estando também atestados um cão e um
antropomorfo, elaborados em barro vermelho com revestimento plumbífero a
verde»”. (SILVA et alli…..)
Os investigadores apontam para uma
cronologia do século XVI, nós vamos dar um salto até ao início do
século XX, quando o etnógrafo Rocha Peixoto se referia à produção de brinquedos
de barro; “para ellas (crianças) fabricam ainda os oleiros todos os typos de
vasilhame em miniatura, (…) mealheiros, castiçaes, armadilhas para toupeiras,
flautas, assobios de agoa, espécies de
ocarinas imitando o cuco, cornetas, enfim. A fabricação com destinos
infantis, é, de resto, bem antiga…”[1].
As
figuras de barro produzidas em Barcelos, de resto de onde surge o famoso Galo,
foram inicialmente concebidas com fins diversos. Dizia Rocha Peixoto que,
independentemente da sua dimensão, tinham quase todas dois acessórios “um
assobio e orifícios para palitos”, tendo assim dupla função, uma para adultos,
outra para crianças.
Muitos
destes assobios ancestrais podem ser vistos no Museu de Olaria, aqui em
Barcelos…e procurem porque vão ver os fantásticos orifícios para palitos, em
muitos deles…
Dizia-se
que as mulheres dos oleiros, a quem cabia as tarefas mais árduas, ajudavam ao
serão a terminar algumas peças, pelo meio construíam figurinhas para os
filhos…e assim terá começado o figurado barcelense, hoje com outra dimensão, na
esfera da arte popular e não na dos brinquedos outrora vendidos na feira e que
serviam para chilrear durante o caminho…até se partirem por um descuido e ter
caído ao chão… e na feira ou romaria seguinte, lá viria outro rouxinol ou uma
ocarina!
[1] ROCHA PEIXOTO, António Augusto da- As Olarias de Prado, 2º ed., Cadernos de Etnografia 7, Museu Regional de Cerâmica, Barcelos, 1966, pp. 45 e 46.


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